"Partido da favela" pede registro ao Tribunal Superior Eleitoral



Celso Athayde, 54, chegou à recepção do escritório de uma agência de publicidade onde teria uma reunião. Negro, foi instruído a ir à sala ao lado -a recepcionista achou que ele estivesse lá para fazer uma entrega. O tema do encontro na agência era justamente a ocupação de espaços de poder por negros, especificamente, no Congresso Nacional. Nesta quarta-feira (30), o partido que Athayde ajudou a fundar com esse propósito, o Frente Favela Brasil, terá seu pedido de registro oficializado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). A ideia é mobilizar negros e moradores de favela em defesa dos seus interesses, nos moldes do que fazem as bancadas evangélica e ruralista. Negros e pardos são 54% dos brasileiros. Cerca de 6% da nação mora em favelas. No entanto, apenas dois em cada dez deputados federais eleitos em 2014 se consideram pretos ou pardos.Se for autorizado, o Frente será o 36º partido brasileiro. Athayde acha que a criação de um novo partido se faz necessária porque a estrutura atual não dá conta de defender essa parcela da população. 

"O DEM tem um grupo de negro, o PMDB também tem, o PSDB tem o Tucanafro, o PT tem o MMU, o PC do B também tem. É o que temos para hoje, mas não é suficiente. Se fosse, o DEM não estaria com uma ação no STF que contesta a desapropriação de áreas particulares em favor de comunidades quilombolas, por exemplo." Se o partido tiver o registro aprovado pela Justiça Eleitoral, passará à etapa seguinte, a de coleta de assinaturas. Pela lei, precisa colher um mínimo de 487 mil assinaturas, ou 0,5% dos votos válidos na última eleição. Para alcançar a meta, a ideia é usar redes sociais e a fama de alguns de seus membros e entusiastas, como Lázaro Ramos, MV Bill, Mano Brown e Sandra de Sá. Athayde diz que conseguirá cerca de 5 milhões de assinaturas.

Eleições 2018

O partido ainda não decidiu se terá candidatos em 2018, nem quem seriam. Bill e Brown estão entre os que Athayde gostaria de lançar, mas ainda não foram convencidos. Athayde diz que ainda é cedo para falar de demandas específicas que o Frente vai defender. "A gente levanta voo e depois constrói o avião." No entanto, no programa estão temas associados a causas tradicionais da esquerda. "A primeira coisa é ocuparmos o espaço de poder. Muito se fala na causa dos negros, mas na hora em que as decisões são tomadas, os negros não estão lá", diz a copresidente do partido, Patricia Alencar, 37, que vive no morro do Papagaio, favela em Belo Horizonte. O que há de concreto é que candidatos e lideranças terão de ser representativos dessa população -negros ou de favelas-, será obrigatório ter paridade de gênero nas lideranças locais -sempre haverá um homem e uma mulher nesses cargos- e os eleitos terão de doar 50% dos seus salários para um fundo dedicado a projetos nas favelas. Produtor cultural, Athayde cresceu nas favelas do Rio e fundou a Cufa (Central Única de Favelas), ONG que promove atividades de educação, lazer, esportes e cultura em lugares pobres. Também é sócio do Favela Holding, conjunto de empresas que atuam nesses territórios. Foi o principal responsável por botar o partido de pé, mas diz que, a partir de agora, acompanhará de fora, como uma espécie de conselheiro. "Não tenho vocação pra isso e quero evitar conflito de interesse. Minha contribuição é na área empresarial." Se aprovado, o Frente Favela Brasil se somará aos 56 novos partidos que já se registraram na corte e agora trabalham para conseguir as assinaturas. "Mesmo se o partido não der certo já terá cumprido o papel de chamar a atenção para esse problema e fazer as pessoas discutirem. Não é só um partido, é um movimento", diz Athayde.
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