Esquecido Há 4 Décadas, Viaduto Que Cedeu Na marginal Não Tem Nem Nome


Até a madrugada em que parte de sua estrutura cedeu, e provocou interdições na segunda via mais movimentada de São Paulo, o viaduto na marginal Pinheiros estava invisível. Ao menos diante dos órgãos da prefeitura responsáveis por sua manutenção. 



O elevado que fica a 500 metros da ponte do Jaguaré, na zona oeste, e liga a pista expressa da marginal à rodovia Castello Branco tinha acabado de completar 40 anos sem obras de manutenção quando se tornou mais uma ameaça ao trânsito. 

Sem nem um nome oficial, a estrutura não recebeu nenhum tipo de melhoria durante a atual gestão do prefeito Bruno Covas (PSDB). Ao que tudo indica, nem nas administrações anteriores já que a prefeitura não sabe dizer quando foi realizada a última visita técnica no local. "Estamos dando uma olhada nessas informações, estamos apurando", disse o secretário de Obras, Vitor Aly.

A pasta informou que realizou uma vistoria no viaduto há três meses, mas de forma visual, e que não encontrou problemas na estrutura.

As causas do acidente ainda não foram esclarecidas pela gestão, que também não deu um prazo para a conclusão das obras e liberação do fluxo na via. 

Inaugurado em outubro de 1978, o viaduto teve o projeto e a construção licitados pelo órgão estadual DER (Departamento de Estradas de Rodagem).

Os baixos do viaduto ficam em terreno que pertence à CPTM (Companhia de Trens Metropolitanos), mas originalmente era da Fepasa (empresa que administrava as ferrovias do estado). A CPTM, por sua vez, nega responsabilidade sobre o viaduto porque herdou da Fepasa apenas as linhas férreas, e não o mobiliário viário.

O DER afirma que a manutenção e vistoria de pontes e viadutos são solicitadas e feitas pelas administrações municipais. A localização do viaduto também não ajuda. Está bem na divisa entre os territórios das subprefeituras de Pinheiros e da Lapa.

As gestões regionais da cidade são incumbidas de solicitar vistoria em pontes e viadutos que apresentam avarias. A indefinição de qual subprefeitura deveria ter feito isso agrava ainda mais o abandono da estrutura. "Não me cabe agora perguntar de quem é esse viaduto", disse o secretário Aly.

O trecho "sem denominação", conforme está catalogado em mapa oficial da prefeitura, não apareceu nem na lista de cerca de cem pontes e viadutos que deveriam ter sido vistoriados por uma empresa de engenharia contratada pela prefeitura em 2012. Esse contrato foi uma resposta da prefeitura às cobranças feitas pelo Ministério Público em relação a reformas de pontes e viadutos e que completam mais de uma década.

Em 2007, a administração municipal se comprometeu a criar um programa de manutenção dos viários mas, como a execução não foi completa, a gestão Covas tenta agora reverter na Justiça multa de R$ 34 milhões. 

A maior prova, porém, do limbo administrativo a que o elevado foi submetido por décadas é a dificuldade do DER em encontrar seu projeto original, necessário para poupar trabalho de recálculos de engenharia e encurtar o processo de recuperação. Funcionários têm vasculhado arquivos em busca de documentos, que não estão digitalizados e mal catalogados, dada a demora em localiza-lo. 

Diante da falta de um nome oficial, agentes públicos usam a imaginação na hora de nomear o viaduto em registros oficiais, como notificações de multa de trânsito, por exemplo. Há vezes em que ele aparece como viaduto Fepasa, ponte da Nova Fepasa e até viaduto do Cadeião, por sua proximidade com o CDP (Centro de Detenção Provisória) de Pinheiros. 


O Cadeião também aparece como nome de um outro viaduto localizado a poucos metros do que cedeu o que agrava ainda mais a confusão viária. Mais uma denominação foi criada pela prefeitura para publicar no Diário Oficial desta quinta-feira (22) o contrato emergencial para as obras de recuperação. No documento, a estrutura é chamada de "Viaduto sobre a CPTM". 

As referência à antiga Fepasa é porque o viaduto foi pensado para encurtar o caminho para acessar a rodovia Castello Branco pela via expressa da marginal. Antes de sua construção, era preciso pegar a avenida Mofarrej, na Vila Leopoldina, para contornar a linha do trem. O engenheiro Roberto de Abreu Camargo, 70, um dos responsáveis pela execução da obra, trabalhava para a Fepasa em 1978.

À reportagem, ele disse que, como os projetos eram feitos em papel, ainda sem a ajuda de computadores, o material era descartado quando a obra era finalizada. "Depois de 40 anos, acho que não tem mais", disse o engenheiro, que tem ajudado a prefeitura na recuperação do viaduto. 

O secretário de Obras localizou também a viúva do engenheiro Walter de Almeida Braga (1930-2016), que projetou a estrutura, em busca de pistas. Ela, porém, contou que se desfez dos arquivos do marido. 

No fim de 1978, o viaduto foi entregue cerca de três meses depois da inauguração oficial do anel viário conhecido como Cebolão, que fica a poucos quilômetros.

A data da inauguração -9 de julho- foi escolhida pelo então governador Paulo Egydio, 90, para combinar com o nome oficial do apelidado Cebolão: Trevo 32, em homenagem aos soldados constitucionalistas que lutaram no estado contra as tropas do presidente Getúlio Vargas.


O governador não abriu mão da efeméride e inaugurou o Cebolão apesar de alguns acessos ainda pendentes, entre eles o viaduto que cedeu no último dia 15. O atraso na finalização da obra fez com que o trânsito fosse desviado para as ruas que passam atrás da Ceagesp.

Para garantir a segurança dos motoristas, foi improvisada uma cancela para parar o tráfego quando algum trem passasse na linha férrea, e um guarda ficava sempre a postos para coibir desrespeitos à sinalização. 

Reportagem da Folha de S.Paulo publicada três dias antes da cerimônia de inauguração do Cebolão chamava atenção para o estado precário das marginais Tietê e Pinheiros e para a possibilidade de não suportarem o aumento de fluxo de veículos previsto. A expectativa era que 140 mil carros por dia passassem a trafegar pelas vias após a abertura do Cebolão. Hoje em dia, a marginal Pinheiros recebe 450 mil veículos por dia.

DÚVIDAS

Quanto tempo vão levar as obras?

Técnicos da prefeitura estimam que leve em torno de seis meses para concluir todos os reparos, mas a liberação do tráfego pode ser feita de forma gradual;O viaduto pode desabar?

Segundo a prefeitura, não. A gestão Covas concluiu as obras de escoramento e informou que a estrutura, que chegou a se movimentar, havia se estabilizado. Os trens da CPTM, que tinham sido suspensos, voltaram a circular no domingo (18);Por que o viaduto cedeu?

Ainda não se sabe o motivo da ruptura. A prefeitura não tem o projeto original da estrutura, construída na década de 1970 por meio de um convênio com a empresa que administrava as ferrovias do estado.
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