Maioria dos ilegais nos EUA estudou e trabalha, diz levantamento



Nos Estados Unidos, a imigração ilegal é um dos temas favoritos do presidente Donald Trump. Os republicanos correm risco de perder espaço nas eleições de meio de mandato? Trump faz alarde sobre a caravana de migrantes da América Central que "ameaça invadir" o país.



Ex-aliados sendo sentenciados em uma investigação sobre interferência russa nas eleições de 2016? Trump coloca na pauta a necessidade de financiamento do muro na fronteira com o México para "proteger" os EUA.


Proteger contra quem é a grande pergunta que passa pela cabeça de especialistas que estudam imigração. O perfil desse grupo é bem diferente da imagem divulgada pelo presidente.

Em discurso, Trump já falou que alguns imigrantes mexicanos eram traficantes e que a caravana de migrantes tinha criminosos infiltrados.

Disse ainda que terroristas estavam cruzando a fronteira, assim como pessoas com doenças contagiosas - sem apresentar provas.

Em um universo estimado em 11,3 milhões de pessoas, algumas certamente vão se enquadrar no estereótipo difundido pelo republicano. Mas o perfil médio do ilegal é outro, defende Jeanne Batalova, analista política sênior do Migration Policy Institute (MPI).

O centro publicou, em novembro, um levantamento a partir de dados de uma pesquisa anual feita pelo Censo americano, considerando o período de 2012 a 2016.

Descobriu que os ilegais não são pessoas com baixa escolaridade, por exemplo. Mais da metade dos que tinham 25 anos ou mais e viviam nos EUA no período havia concluído pelo menos o ensino médio. Além disso, 15% tinham pelo menos o ensino superior.


No país, 67% dos ilegais que tinham mais de 16 anos estavam empregados no período considerado -percentual superior à taxa de ocupação de 58% dos nascidos nos EUA.

A maioria deles está estabelecida há décadas no país. Seis em dez moravam nos EUA no mínimo há dez anos, e 21% estavam em solo americano nos últimos 20 anos ou mais.

Para Batalova, os dados sugerem que o viés adotado pelo governo é puramente político e não se baseia em informação amparada por dados.

"Não é que a informação não esteja disponível ou escondida, é só que não se encaixa no discurso do governo", critica.

Ela reconhece que a imigração ilegal é um problema que nenhum país deseja ter. "O governo quer que seus cidadãos tenham proteção e direitos. Então a questão é o que você vai fazer com isso, e é aí que a política entra."

Donald Kerwin, diretor-executivo do Center for Migration Studies de Nova York, também considera que o presidente se atém pouco aos fatos quando se trata da questão migratória. "Ele começa com o que acha que vai ser um argumento persuasivo para sua base. As caravanas são um exemplo. Nunca houve ameaças. Mas ele viu como uma oportunidade para mobilizar, agitar, mesmo que precise vilificar um grupo", diz.


Em 2016, o número de imigrantes ilegais atingiu o menor nível desde 2004, seguno Pew Research Center.


O levantamento contabiliza número menor de ilegais do que o MPI: 10,7 milhões. Identifica ainda uma mudança de perfil dos que tentam entrar nos EUA. Enquanto os mexicanos ainda são mais da metade dos ilegais - 5,4 milhões -, a cada ano o número de cidadãos do país que tentam cruzar a fronteira diminui.

A única população que tem registrado aumento é a de centro-americanos, segundo o Pew. No ano fiscal de 2018, encerrado em setembro, a maior parte das famílias apreendidas tentando entrar ilegalmente nos Estados Unidos era composta por cidadãos do chamado triângulo do norte: Guatemala, Honduras e El Salvador.

"Antes, a maioria dos que entravam nos EUA eram homens que vinham do México para trabalhar. Essa foi a composição da população por muitos anos", diz Kerwin. "O que aconteceu é que pessoas da América Central passaram a fugir das condições ruins, incluindo violência, perseguição e pobreza."

O grande fluxo de imigrantes atravessando o México fez com que Trump prometesse, durante a campanha, construir um muro para bloquear a entrada desses ilegais. Nas últimas semanas, o financiamento à barreira voltou a ganhar manchetes, por provocar a paralisação parcial do governo.


Mesmo se construído, o muro estaria longe de resolver o problema de imigração, segundo especialistas. Estimativa do Pew Research Center indica que muitos ilegais entraram nos EUA com permissão, mas ficaram além da data marcada para deixarem o país.

O Pew estima que eles constituem a maioria dos ilegais que entraram nos EUA em 2016. O último relatório do Departamento de Segurança Doméstica, de 2017, estima que mais de 700 mil pessoas ficaram nos EUA após o prazo.

"O muro não foi feito para resolver o problema. É uma forma de obter apoio de sua base, mas nunca teve a ver com ser uma resposta política à situação", avalia Kerwin. "As pessoas não vão ser dissuadidas de buscar segurança nos EUA e se unir com suas famílias se elas precisarem disso."

Para ele, o primeiro passo para combater a imigração ilegal seria regularizar a situação dos que estão hoje nos EUA, o que atenderia a necessidades do mercado de trabalho e favoreceria a reunificação de famílias. Algo parecido foi feito na última grande reforma imigratória, em 1986, no governo de Ronald Reagan.

O ato regularizou 3 milhões de ilegais que tinham entrado antes de 1982, legalizou trabalhadores agrícolas e criou punições para quem contratasse pessoas sem documentação.

Para Jeanne Batalova, do MPI, é preciso reformar o sistema de imigração inteiro, "que não está funcionando". "Os pedidos de asilo e de cidadania não são processados de forma suficientemente rápida, pela falta de juízes. Há sobrecarga nas cortes", diz. Seria necessário contratar juízes para agilizar os processos.

Ela diz que o governo deveria investir em tornar transparente os pedidos de asilo e cidadania que são aceitos e recusados. "Isso enviaria o sinal certo. Se uma pessoa com determinado perfil teve o pedido negado, não faz sentido eu tentar", afirma. Com informações da Folhapress.
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