O morto Que Se Inaugura e o Grito Que Não Se Ouve, Gerson Brasil*.


No Primeiro de maio correu mundo as festividades pelo Dia do Trabalho, o feriado, o regozijo e também os protestos, afinal, a concordância, a abjuração, a compreensão e a comunhão sempre estiveram escassas e se mantêm. Por mais esforços na direção da comuna, eles continuam sendo ignorados, daí talvez a necessidades das festas de conquistas ou da revolução, contra esse monstro dissonante que não une, só separa, cujo nome pode ser legião ou classes sociais e seus interesses.

Ocorre que essas festas mais escondem o morto do que lhe revela a face, em direção à superação do episódio e a projeção de novos tempos, e a instauração de mecanismos voltados para o futuro, logo ali, adrede, porque a pressa urge, como nunca. O morto, como diz João Cabral de Melo Neto, “mais se inaugura do que morre”.

Se a festa da comemoração e do protesto insiste em transmutar o presente e o passado em algo novo, na repetição das mesmas encenações, o objetivo está comprometido e dificilmente a classe social, ou as classes sociais vão conseguir instruir a consciência no movimento.

Sobram as alegorias, as palavras de ordem, a indumentária, povoada de heróis, quase heróis, heróis cujo tempo é acelerado na pressa de uma canonização de súbito, enfim, constrói-se todo o arcabouço da comemoração, sem que seja possível realizar a história, mas a temporalidade, uma das dimensões da história, está presente.

Quando olhamos o Primeiro de Maio vemos o esforço para reavivar a memória (é bom nunca esquecer o inimigo) e esconjurar ao mesmo tempo o passado incômodo; mas isso dentro de uma repetição que se estende anualmente, de modo inacabado. Essa operação que enseja ser eficaz, traduz e mitiga o inimigo, assim como fazem os ufólogos, que mimetizam os seres extraterrestres em forma humana, como se só ela pudesse ser pensada.

Como a festa é um laço social, como muitos outros, a exemplo do casamento, batizado et al, muitos autores participam do processo e lhe impõe condições de realização e de interpretação, que resultam em mais dificuldades ainda para o estabelecimento da consciência crítica da festa.

Às vezes, a festa extrapola os limites, fica furiosa, abandona o passado, toma o acontecimento não como repetição ou o esforço empreendido para superá-lo e sim como confronto.

No início, a festa do Dois de Julho era ensurdecedora. Nenhum herói, nenhuma camiseta, e nem tão pouco promessas que levariam ao Éden. “Do outro lado dessas terras, tem as terras do senhor, lá o pão brota das pedras e o leite da água, e os pobres vão ficar ricos e vão pro céu e os ricos vão para as profundezas do inferno, porque os pobres são a solução e não o problema, e a culpa é dessas zelites almodiçoadas”.

O antropólogo José Augusto Laranjeiras Sampaio mostra o surgimento do Dois de Julho como um acontecimento moldado por ex-combatentes e moradores do Santo Antonio: “reproduziram o percurso da entrada do exército libertador na cidade, levando uma carroça com a imagem de um índio em procissão até a Catedral. Nos primeiros anos, o desfile em louvor à Independência era seguido de saques e depredações contra comerciantes portugueses, fato que preocupava as autoridades, que procuraram impedir o desfile ou mesmo modificá-lo”, até que se chegou à domesticação.

No medievo, as festas eram uma forma de tornar a vida arte e com isso acelerar o renascimento, o surgimento do indivíduo, num ambiente carregado de práticas tirânicas e eclesiásticas, as insidiosas penitências que marcaram o cenário da Idade Média.

Burckardt anota que em Florença, em primeiro de maio de 1304, no começo do Quatrocentos, teve lugar uma grande representação do inferno, “contando com barcos, uma armação construída sobre o Arno e durante a qual a ponte de alla Carraia ruiu sob o peso dos expectadores”. Há nessa encenação todo o investimento para colocar a máscara, o traje, fazer maquiagem, ou seja, de construir um ambiente de superação pela arte.

Mas no Carnaval de 1500, conta Burckardt, “César Borgia – cuja obstinação em matar adversários era exemplar – mandou encenar, com uma atrevida alusão a si próprio, o triunfo de Júlio César, contando com onze suntuosos carros e, com certeza, “para o escândalo dos peregrinos vindos para o jubileu”.

Todo os anos dá-se o grito dos excluídos, uma representação das condições de pobreza e abandono do povo, com críticas aos governantes. Ocorre que ninguém os ouve, mas a repetição do protesto prossegue ininterruptamente. Se não é possível introduzir a arte, dada a grande indignação, baldar a forma experimentaria outra dimensão? Quem sabe no lugar do grito o traque de massa, estrelinhas ou mesmo fogueiras, mas, claro, não aquelas de São João, e nada de balão, porque ele não cai na mão, nem na rua do sabão. Seja como for é a história sendo escrita, mas é bom apresentá-la a Rodrigo Maia, porque ele confessou que ainda não tomou conhecimento da nova política, ou seja, um sujeito a-histórico, assim como seus correligionários e miçangas.

* Gerson Brasil é jornalista e editor de Economia da Tribuna, onde este artigo foi publicado originalmente.
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