A Pedalada Arriscada De Boris.


É antigo o desprezo de Boris Johnson, favorito a tornar-se próximo premiê britânico, pela integração da Europa. Ele passou parte da infância em Bruxelas, onde seu pai era funcionário do governo junto à então Comunidade Econômica Europeia (CEE), depois União Europeia (UE). Pelos relatos disponíveis, não foi um período feliz em sua vida.


Em 1989, voltou à cidade como correspondente do jornal Daily Telegraph. Talentoso, dono de um texto mordaz, cheio de humor, tinha um instinto natural para pautas controversas, que apresentavam o projeto europeu como fantasia de burocratas dispostos a regular do formato das bananas ao tamanho das camisinhas. A reação cômica e desajeitada das autoridades rendia sucesso instantâneo a seus artigos.


Acabou demitido depois de inventar uma citação. Àquela altura, já era bajulado pela premiê Margaret Thatcher e tinha se tornado uma estrela na ala eurocética do Partido Conservador. Ala que só cresceu nas últimas décadas, até lhe dar ontem 114 dos 313 votos na primeira votação entre deputados para escolher o líder do partido (e próximo premiê do país).


A rodada de ontem eliminou os três últimos colocados (Andrea Leadsom, Mark Harper e Esther McVey). Nas próximas duas votações, marcadas para entre os dias 18 e 20, serão eliminados mais cinco candidatos, até que restem apenas dois. Se nenhum deles desistir, a decisão final caberá aos 160 mil integrantes do partido, numa eleição pelo correio marcada para o final de julho. Em todas as pesquisas, Boris – todos o chamam pelo primeiro nome – é dado como favoritíssimo.



Não é a primeira vez que isso acontece. A anterior foi em junho de 2016, quando ele emergiu vitorioso da campanha pelo Brexit, ao lado de seu então parceiro, e hoje ministro do Meio Ambiente no governo Theresa May, Michael Gove. Naquela ocasião, Boris foi traído por Gove, que o julgava incapaz de governar.


Na campanha, a personalidade caótica, cultivada nos oito anos em que Boris foi prefeito de Londes, seu talento verbal e seus aforismos impagáveis eram ativos. No governo, prenunciavam catástrofe, num momento crítico da história britânica.


“Quero guardar o bolo e comê-lo ao mesmo tempo.” Seu mantra na campanha pelo Brexit foi dito pela primeira vez quando eleito deputado, em 2001, e pretendia permanecer no cargo de diretor de redação da revista conservadora The Spectator (apesar do conflito de interesse evidente). Revela sua característica mais marcante desde o tempo em que militava na política estudantil em Oxford ou inventava reportagens em Bruxelas: a distância entre as promessas e a realidade.


Mesmo tendo sido o rosto mais popular associado ao Brexit, o lançamento da candidatura de Gove rachou o partido em 2016 e conduziu à eleição de May, que fizera uma discreta campanha pela permanência na UE. Na hora de compor o gabinete, ela chamou Boris para o cargo de ministro do Exterior, embora tivesse criado um ministério especial para negociar o Brexit, tarefa de que ela se encarregou pessoalmente durante três anos.


Boris ficou no cargo até julho do ano passado, quando May apresentou seu plano de divórcio às lideranças partidárias. Elaborado com base na realidade, evidentemente não permitia aos britânicos manter o bolo e comê-lo ao mesmo tempo. Desde então, comandou no partido a campanha pela rejeição à solução adotada para a fronteira irlandesa e, nos últimos meses, virou um defensor da saída da UE sem acordo – o cenário “no deal” – , caso a UE não ceda.



Como a UE já afirmou reiteradas vezes que o acordo fechado com May no final do ano passado não está aberto a renegociação, Boris se tornou o rosto da aposta arriscada que o Reino Unido fará, caso deixe a UE sem acordo no prazo fatídico de 31 de outubro (data limite para o Brexit, depois de dois adiamentos).


Apesar dos mais de cem alertas do próprio governo para o cenário caótico que o “no deal” representa e de uma lei contra ele aprovada pelo Parlamento, a possibilidade não parece assustar a maioria dos conservadores. Melhor, pensam, lançar tudo para o alto do que continuar enrolando sem nenhuma chance de tomar uma decisão menos traumática. Não é, naturalmente, a posição da maioria da população britânica, que tem rejeitado a saída sem acordo (e o próprio Brexit) em todas as pesquisas de opinião.


A decisão sobre quem liderará o momento mais crítico para o país desde a Segunda Guerra não caberá aos mais de 45 milhões de eleitores britânicos, mas aos 160 mil integrantes do Partido Conservador. A ausência de uma Constituição formal no país e o resultado vago do plebiscito de 2016 criaram uma situação em que o mais cenário mais provável é hoje o “no deal”. Não haverá tempo hábil para renegociar qualquer acordo entre a provável eleição de Boris e a data do Brexit.


Boris continua o mesmo bufão de sempre: relapso nos trajes, desajeitado nos gestos e genial nas palavras. Um mestre na arte de chamar a atenção. “A terrível arte do candidato é cultivar o auto-engano dos patetas”, escreveu em 2018 sobre seu período em Oxford.


Pedala a opinião pública como a bicicleta que usava para ir trabalhar desde os tempos de prefeito londrino. Seu populismo inspirado em Donald Trump tem lhe fornecido um caminho sem solavancos ao topo da conturbada política britânica. Uma vez no governo, o terreno mudará de figura. Como já aconteceu, a estrada acidentada do Brexit tem tudo para fazê-lo esboroar-se e dar com a cara no chão.
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