Fórmula 1 tem impasses, especulações e prejuízos na pandemia



Quatro meses após os testes da pré-temporada, o Mundial de Fórmula 1 enfim terá início neste final de semana. O campeonato será aberto pelo GP da Áustria, marcado inicialmente para ser apenas a 11.ª prova do ano. A drástica mudança escancara o que foram os últimos meses para a principal categoria de automobilismo do mundo, com impasses, dúvidas e seguidas alterações no calendário.


A pandemia do novo coronavírus tornou a temporada de 2020 uma das mais tumultuadas da história de 70 anos da Fórmula 1. A indefinição teve início com o cancelamento de última hora do GP da Austrália, que deveria abrir o campeonato no dia 15 de março. Os pilotos nem chegaram a participar do primeiro treino livre. Ou seja, não entram na pista desde os testes da pré-temporada em Barcelona, no final de fevereiro.

"Isso nunca aconteceu. Na verdade, o nosso mundo nunca viveu da forma como está hoje. A FIA (Federação Internacional de Automobilismo) está fazendo passo a passo. Até agora confirmou só a fase europeia, enquanto está organizando as outras corridas fora da Europa", afirmou Luciano Burti, ex-piloto de Fórmula 1 e comentarista da TV Globo.

Nestes quatro meses longe do asfalto, os pilotos viram o calendário sofrer um brusco encolhimento. As 22 etapas, que seriam um recorde na Fórmula 1, se tornaram apenas oito até agora. Ficaram pelo caminho até provas tradicionais, como as de Mônaco e do Japão. O GP da Holanda precisou adiar a sua reestreia na categoria.

"Eu nunca tinha visto isso desde que acompanho a Fórmula 1 desde criança. A F-1 tinha sempre aquela imagem de que não muda nunca, de que fazem de tudo para evitar mudanças. O que está acontecendo é uma exceção, como vem acontecendo com tudo no mundo", disse Tarso Marques, também com passagem pela categoria.

Preocupada com as indefinições causadas pela pandemia, a direção da Fórmula 1 fez algo incomum ao promover rodadas duplas no mesmo circuito, tanto na Áustria (também no próximo dia 12) quanto na Inglaterra (dias 2 e 9 de agosto). As outras corridas confirmadas serão na Hungria (19/07), Espanha (16/08), Bélgica (30/08) e Itália (06/09). "A logística não é simples, mas as rodadas duplas, como nos dois primeiros fins de semana, na Áustria, facilitam essa questão", avaliou Burti.


Depois da prova italiana, o calendário é uma incógnita. Adiados, os GPs do Bahrein, Vietnã, Canadá e China ainda têm chance de serem disputados neste ano. Já as corridas na Rússia, Estados Unidos, México, Abu Dabi (Emirados Árabes Unidos) e até no Brasil seguem em aberto. E, mesmo fora da categoria nos últimos anos, circuitos conhecidos, como os de Mugello (Itália), Ímola (San Marino) e Algarve (Portugal), podem reaparecer no campeonato deste ano. Estes traçados foram alvos de intensos rumores nos últimos meses.

O clima de indefinição atingiu também o mercado de pilotos. O alemão Sebastian Vettel foi o protagonista ao anunciar que deixará a Ferrari no final do ano. Ele não definiu o seu futuro, o que dá combustível para novas especulações. A mais forte delas é uma futura parceria com Lewis Hamilton na Mercedes. A saída de Vettel causou um efeito dominó. Para o seu lugar, o time italiano contratou Carlos Sainz Jr.. A vaga do espanhol na McLaren será preenchida pelo australiano Daniel Ricciardo. E, para o lugar vago na Renault, Fernando Alonso passou a ser cogitado, em um eventual retorno à Fórmula 1.

Enquanto ficavam de olho no mercado, os pilotos competiam entre si em provas de e-Sports, em simuladores, em uma estratégia de marketing da Fórmula 1 para seguir gerando notícias, mesmo sem carros na pista. O monegasco Charles Leclerc, sensação da temporada passada, foi um dos principais destaques.

No mundo das equipes, a pandemia significou prejuízos, apesar da aprovação da redução do teto orçamentários dos times para 2021. Para Williams e McLaren, a medida talvez não seja suficiente para manter suas contas no azul. A situação ficou tão difícil que o Grupo McLaren demitiu 1.200 funcionários e cogita vender até 30% de suas ações para levantar recursos.


"Sempre vimos crises em equipes pequenas. Mas o que está acontecendo agora é uma crise maior. A Williams já estava sofrendo nos últimos anos, mas agora levou a machadada final. Afundou e desandou de vez. Na verdade, todas as equipes estão sofrendo, até as maiores. Os custos continuam e a situação vai ficando insustentável", avaliou Marques. "As equipes menores, que dependem mais dos patrocinadores, vão ter um prejuízo maior este ano. Por isso é importante que a Fórmula 1 adote esses cortes o mais rapidamente possível", complementou Burti.

Após perder seu principal patrocinador, a Williams praticamente se colocou à venda ao abrir as portas para investidores. Nesta pandemia, recebeu um empréstimo de 50 milhões de libras (cerca de R$ 325 milhões) do empresário Michael Latifi para manter suas contas em dia. Michael é pai do piloto canadense Nicholas Latifi, que estreará na Fórmula 1 neste ano, pela mesma equipe.

A pandemia, na avaliação de Luciano Burti, poderá trazer aprendizados decisivos para o futuro da categoria. "A Fórmula 1 talvez terá de ver o quanto é importante uma saúde financeira para as equipes, para que elas não quebrem diante de contratempos que surgirem. Em qualquer tipo de negócio é assim, mas serve para lembrar que não dá para contar com o dia de amanhã. Outro ponto é de ter mais responsabilidade. No GP da Austrália, vacilaram ao permitir o acesso do público já sabendo que o coronavírus estava forte na Europa e na Ásia. Sem dúvida este foi um grande aprendizado para a Fórmula 1" .

GP DO BRASIL - O crescimento de número de infectados e de mortos por covid-19 no Brasil pode pesar na decisão da Fórmula 1 de manter o GP nacional no calendário deste ano. A situação da corrida no autódromo de Interlagos, em São Paulo, segue em aberto. Por precaução, os promotores da prova sequer começaram a venda de ingressos, que geralmente tem início em março.

O futuro é mais incerto ainda para 2021 em diante. O contrato da cidade de São Paulo com a Fórmula 1 termina neste ano. E, para os próximos, a capital paulistana tem a concorrência do Rio de Janeiro, que tenta retomar as corridas. As duas cidades dizem estar perto de um acerto com a cúpula da categoria. Não há prazo para a definição das negociações.
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